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quinta-feira, 27 de abril de 2023

Escaladores de cachoeiras: duas novas espécies de peixes são descobertas em MG

Encontradas em Veríssimo, no Triângulo Mineiro, espécies são uma das únicas que conseguem viver em córregos e riachos acima de quedas livres de água, pois são capazes de subi-las com uso dos dentes fora da boca e movimentos zig-zag.

Os peixes possuem menos de 6 cm de comprimento, conforme a pesquisa. — Foto: g1.

Pesquisadores divulgaram a descoberta de novas espécies de peixes, das quais duas são exclusivamente do Rio Uberaba, no município de Veríssimo, no Triângulo Mineiro. Elas são do gênero Trichomycterus, conhecido popularmente como bagres neotropicais. São peixes de pequeno porte, entre 4 cm e 5 cm, com dentes fora da boca, que permitem escalarem rios e riachos.

Ao g1, os pesquisadores Valter Azevedo-Santos e Axel Katz, doutores em Zoologia, conversaram sobre o processo de identificação dos peixes e as características das espécies.

A descoberta foi feita por meio de uma pesquisa, que ocorre há alguns anos, realizada em parceria com pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Faculdade Eduvale de Avaré e Universidade Federal do Tocantins (UFT).

A pesquisa descreve seis novas espécies em Minas Gerais. Duas delas ocorrem exclusivamente em um riacho em Veríssimo. Ambas as espécies de bagres foram batizadas de Trichomycterus uberabensis e Trichomycterus coelhorum, na qual foram reconhecidas novas características, que as classificam como novas espécies.


A descoberta

Essas espécies foram identificadas por apresentarem algumas características únicas dos demais, em relação a suas feições externas (morfológicas) e ósseas.

“Muitas dessas espécies são extremamente parecidas com outras já descritas caso se olhe rapidamente. No entanto, com um olhar mais detalhado vê-se a diferença. Desde o início havia a suspeita de que poderiam ser provavelmente novas, com o local e com a aparência desses bagres já se pode levantar a suspeita de serem novas, que veio a ser provada após estudos feitos no laboratório”, explicou Axel Katz.

Ainda conforme os estudos, essas espécies, presentes em localidades de drenagem, são particularmente suscetíveis à extinção em um cenário de grandes intervenções humanas, merecendo, portanto, atenção especial.


As espécies

Os peixes, conhecidos popularmente como bagres, são novas espécies da família Trichomycteridae, atualmente, até então, 180 espécies eram reconhecidas nessa família. Geralmente são encontrados em águas com bastante correnteza, temperatura baixa e bem oxigenada. Também possuem um comportamento específico, segundo o pesquisador.

"Com o uso dos dentes do lado de fora da boca, eles conseguem escalar cachoeiras com um movimento de zig-zag e com isso muitas vezes são os únicos peixes encontrados em rios acima de cachoeiras" disse Katz.

As espécies do gênero Trichomycterus, descritas na pesquisa, não ultrapassam 6 cm de comprimento. Assim, muitos detalhes, como os dentes (odontódeos) e algumas características físicas, não são facilmente visíveis nas fotos publicadas. São tipicamente encontradas entre as folhas de plantas nas margens, próximos a raízes ou dentro da folhagem no fundo dos rios.

Trichomycterus coelhorum, descoberta no Triângulo Mineiro. — Foto: Reprodução/ MDPI.

Trichomycterus coelhorum: dentre algumas de suas características específicas, é distinguido das outras espécies do gênero por ter menos raios dorsais na nadadeira de sua cauda e por ter seis raios na nadadeira peitoral, ter menos vértebras e menos dentes. Possui coloração amarelo pálido, com faixa escura marrom a preta e pontos pretos.

O nome "coelhorum" foi dado como uma homenagem à família "Coelho", da zoóloga Dra. Paula Nunes Coelho, de Frutal, também no Triângulo Mineiro, que prestou apoio aos pesquisadores.

Trichomycterus uberabensis, descoberta no Triângulo Mineiro. — Foto: Reprodução/ MDPI.


Trichomycterus uberabensis: dentre algumas de suas características específicas, não possui nadadeira pélvica, tem menos vértebras, mais dentes em sua arcada. O padrão de coloração do animal é único, composto por pequenas manchas escuras, marrons e negras.

O nome “uberabenses” foi dado em homenagem e alusão a bacia do Rio Uberaba.

"São espécies conhecidas pelo padrão colorido e número de raios nas nadadeiras e vértebras", disse Valter.


O registro de novas descobertas

A descoberta científica de uma nova espécie normalmente segue um processo formal e um conjunto de procedimentos estabelecidos pela comunidade científica.

  • Coleta e documentação: O primeiro passo é coletar espécimes da nova espécie, juntamente com informações detalhadas sobre sua morfologia, anatomia, distribuição geográfica, habitat, entre outros dados relevantes.
  • Análise comparativa: Os espécimes coletados são, então, comparados com outras espécies relacionadas e descritas cientificamente, para determinar sua distinção e identificar suas características únicas.
  • Descrição formal: Com base na análise comparativa, os pesquisadores escrevem uma descrição formal da nova espécie, seguindo as convenções científicas estabelecidas.
  • Revisão por especialistas: A descrição formal da nova espécie é então submetida a revisão por outros especialistas na área, em um processo conhecido como revisão por pares.
  • Publicação: Após a revisão por pares e a aprovação pelos revisores, a descrição formal da nova espécie é publicada em uma revista científica especializada. A publicação científica é essencial para estabelecer o registro formal e oficial da nova espécie na literatura científica.
  • Depósito de espécimes: Os espécimes coletados que serviram de base para a descrição da nova espécie são geralmente depositados em museus ou coleções científicas, para que possam ser acessados e estudados por outros pesquisadores no futuro.

O registro de uma nova espécie é um processo rigoroso que exige evidências científicas sólidas e em conformidade com os princípios da taxonomia biológica, que é a disciplina científica que trata da classificação dos seres vivos.

A descoberta foi feita por Wilson J. E. M. Costa, Valter M. Azevedo Santos, José Leonardo O. Mattos e Axel M. Katz, formalizada por meio de um artigo na revista científica "MDPI".


Fonte: Escaladores de cachoeiras: duas novas espécies de peixes são descobertas em MG | Triângulo Mineiro | G1 (ampproject.org).

segunda-feira, 24 de junho de 2019

Verme que come pedra e defeca areia intriga cientistas

Espécie recém-descoberta nas Filipinas inaugura um novo gênero

Exemplar de um adulto de Lithoredo abatanica. Fonte: www.sci-news.com.
Algo curioso acontece em uma curta faixa de água doce nas Filipinas — uma coisa que não se repete em nenhum outro lugar do mundo. Nas margens do rio Abatan, ao longo de um trecho com extensão entre três e cinco quilômetros, as pedras mais parecem queijos suíços. Isso é obra do Lithoredo abatanica, uma espécie de molusco bivalve que tem aparência de verme. Ele não apenas cava túneis nas rochas para se abrigar, como também come pedra.

Mais esquisito ainda, o bicho “tritura” os minerais em seu sistema digestivo e solta areia como excremento. Identificada pela primeira vez em 2006 durante uma expedição do Museu Nacional Francês de História Natural, foi só recentemente que os pesquisadores tiveram a chance de olhar a espécie mais de perto. Cientistas dos Estados Unidos organizaram uma expedição de biodiversidade para as Filipinas.

O nome da criatura reflete suas particularidades: lito é a palavra grega para pedra, e teredo se refere aos animais da família dos teredinídeos, moluscos bivalves comuns pelos mares. E abatanica vem do nome do único rio onde ele é encontrado. De tão peculiar, o litoredo inaugurou um novo gênero na taxonomia. Apesar de parecer muito com um verme, ele não é tecnicamente um — sua classe inclui mariscos, mexilhões e ostras.

Mas seu parente mais próximo são os chamados “vermes de navio”, que há séculos são o terror dos marinheiros por comerem a madeira das embarcações e dos portos. Micróbios em seu interior transformam as lascas em uma sopa nutritiva. Não se pode dizer o mesmo das rochas. “Pedra não tem nutrientes, então não há muito ali dentro de que esse animal possa viver”, afirma em um vídeo Dan Distel, da Universidade do Nordeste, em Boston.

“Isso nos diz que ele está fazendo algo a mais, e deve ser muito interessante”, diz o diretor do Ocean Genome Legacy, co-autor do artigo publicado nesta quarta (19) no periódico Proceedings of the Royal Society B. Ambos os moluscos ficaram parecidos com vermes porque a evolução deixou seus corpos alongados demais e suas conchas pequenas demais. Elas ganharam novas funções: escavar pedras e lascar madeira.

Algumas espécies dessa família são enormes, incluindo o maior bivalve da natureza, que tem um metro e meio de comprimento e vive na lama dos mangues. L. abatanica é bem menor, com cerca de 10 centímetros apenas. Análise de seu trato digestivo mostrou que a rocha calcária de que ele se alimenta não é de fato digerida.

Os sedimentos saem do mesmo jeito que entraram — só que triturados. Moendo a pedra em areia, o verme contribui para aumentar o substrato do fundo do rio, podendo até influenciar no fluxo do Abatan. Agora os cientistas querem aprofundar o estudo para descobrir como os túneis escavados abrigam outras espécies e interferem na ecologia local.

Mas, principalmente, pretendem descobrir o que é que o litoredo come. Eles especulam que seja através de algum mecanismo parecido com o de seus parentes maiores, no qual as bactérias desempenham um papel fundamental. Além de entender melhor a família dos teredinídeos, será possível descobrir como esse animal desenvolveu a habilidade de moer pedra — algo completamente inusitado.


quinta-feira, 5 de abril de 2018

Tubarões em extinção são alvo de pesca no litoral do Maranhão

Pesquisa realizada com a contribuição de 11 centros de pesquisas localizados no Brasil e na Austrália apontou que espécies em extinção tem sido alvo de comércio no litoral norte do Brasil. Só no Maranhão a pesca já dura 60 anos.

Pesquisadores de 11 centros encontraram tubarões mortos em portos do Amapá ao Maranhão (Foto: Arquivo/Jorge Nunes).
Um grupo de pesquisadores brasileiros constataram que diversas espécies de tubarão estão sendo comercializadas em vários pontos do litoral do Litoral Amazônico brasileiro, do Maranhão até o Amapá.

O estudo publicado na revista americana Plos One (Título: Analysis of the supply chain and conservation status of sharks (Elasmobranchii: Superorder Selachimorpha) based on fisher knowledgeapontou que a caça aos tubarões ocorrem no Maranhão há pelo menos 60 anos. As capturas aumentaram nas últimas quatro décadas, quando pescadores de outros estados do Brasil, encorajadas por comerciantes asiáticos, se mudaram para a região para iniciar o comércio.

Tubarões são encontrados com sinais de mutilação nos portos (Foto: Arquivo/Jorge Nunes).
No final de fevereiro, uma outra publicação na revista Scientific Reports, da Nature, apontou várias espécies em extinção que estão sendo mortas durante pescarias no litoral norte do país. O estudo foi realizado no período de dois anos com a contribuição 15 pesquisadores em 11 centros de pesquisas localizados nos estados do Pará, Maranhão, Pernambuco e na Austrália.

Dentre o grupo de espécies ameaçadas identificadas no estudo estão o tubarão-martelo, tubarão-tigre e o tubarão-quati - este último existe apenas na parte norte da América do Sul, segundo os pesquisadores. O tubarão-martelo (Sphyrna mokarran) é, inclusive, alvo do governo brasileiro para conservação de espécies em perigo em nível global.

Pesquisadores realizam análise das barbatanas de tubarões encontrados em portos e mercados no litoral norte do Brasil (Foto: Arquivo/Jorge Nunes).

No ano passado, o Ministério do Meio Ambiente chegou a assinar um Memorando de Entendimento sobre a Conservação dos Tubarões Migratórios na 12ª sessão da Conferência das Partes da Convenção sobre Espécies Migratórias, nas Filipinas.

Das espécies identificadas na pesquisa, doze foram encontradas na cidade de Bragança-PA, onze em Tutóia-MA, nove em Belém-PA, nove em Raposa-MA, seis na costa do estado do Amapá, três em Carutapera-MA e dois na cidade de Vigia-PA.

Pesca de tubarões em extinção foram identificados em sete regiões no litoral norte do Brasil, incluindo o Maranhão (Foto: Reprodução/Nature).
Em entrevista ao G1, Jorge Luiz Silva Nunes, que foi um dos líderes da pesquisa, informou que as espécies de tubarões têm entrado em declínio em decorrência da pesca artesanal incidental, que ocorre quando o alvo da pescaria são outras espécies de peixes, como as pescadas ou os peixes-serra. Nos portos, os animais chegam tão mutilados que os pesquisadores precisaram utilizar técnicas com DNA para identificar as espécies.

“O animal chega todo cortado no porto, então a identificação é muito difícil. A forma utilizada para identificar essas espécies foi pelo DNA. Sabe quando você pega uma mercadoria em um mercado, leva no caixa e vê o preço? É mais ou menos assim. A gente compara as sequências de DNAs da nossa amostra com as sequências disponíveis em um banco de dados e dessa forma definimos qual é a espécie”, disse o pesquisador.

Professor Jorge Luiz contou que a identificação dos tubarões só foi possível com a ajuda de análise de DNA (Foto: Arquivo Pessoal).

Ele também contou que os tubarões desembarcados nos portos têm a carne e as nadadeiras comercializadas, o que move uma grande cadeia produtiva que termina na venda de iguarias na cozinha asiática. A carne de tubarão é consumida no Brasil e as barbatanas dos tubarões são vendidas para compradores que as utilizam como principal ingrediente da sopa de barbatana.

“Os produtos dos tubarões são transportados para outros estados, sendo que o destino nacional normalmente é o litoral do estado de São Paulo. No comércio da barbatana, há pessoas que vem para o Brasil para comprar e levar para países asiáticos. Eles fazem a sopa de barbatana, que é consumida por pessoas com alto poder aquisitivo nesses países”, contou Jorge Luiz, que é professor da Universidade Federal do Maranhão e doutor em oceanografia.

Além do desequilíbrio ecológico que pode acontecer pelo desaparecimento dos tubarões, o pesquisador também apontou que a principal consequência da morte desses animais será uma grande perda de informações históricas.

“Quando falamos em uma espécie entrar em extinção, muitas pessoas não sabem o que se perde com isso. Uma espécie é uma biblioteca de informações que deram certo ao longo de milhares de anos. É como se você tivesse uma biblioteca, como a de Alexandria, e elas fossem simplesmente destruídas", afirmou Jorge Nunes.

Para os pesquisadores, além de frear a morte dos tubarões, resta ainda instrução aos pescadores, que ainda não compreendem a importância de manter as espécies vivas na natureza.

“O que falta mesmo é instruir. Não adianta pensar em conservação e trabalhar só nas universidades e não aplicar. Na verdade quem são os protagonistas de tudo são os pescadores (...) Sabia que eles não têm a menor noção sobre as espécies que estão ameaçadas. E aí quando ficam sabendo disso, eles não conseguem imaginar o que isso pode acarretar”, explicou o oceanógrafo.

Barbatanas dos tubarões são retiradas para comercialização com compradores asiáticos (Foto: Arquivo/Jorge Nunes).

sábado, 4 de novembro de 2017

VI Jornada de Ecologia Aquática e Pesca



Belém (PA) - A Jornada Acadêmica em Ecologia Aquática e Pesca é um projeto de extensão que acontece uma vez ao ano, promovida pelo Programa de Pós-Graduação em Ecologia Aquática e Pesca da Universidade Federal do Pará. Este ano irá ocorrer a sexta edição no dia 09 de novembro de 2017 no Auditório Setorial Básico II da UFPA, Belém. O objetivo deste evento é promover uma ponte entre docentes e discentes da Graduação e Pós-Graduação e a comunidade. O evento é realizado em formato de palestras, de forma que os docentes e discentes proferem sobre a temática “Ecologia Aquática e Pesca” onde a comunidade terá acesso ao conhecimento que vem sendo gerado pelos grupos de pesquisa. Nessa edição as inscrições são gratuitas com emissão de certificados de participação. Vagas limitadas. Aproveitem!

O evento contará com a importante participação do Dr. Miguel Petrere Jr da Universidade Federal de São Carlos, Campus Sorocaba, com a palestra "O mito da energia verde - a energia de hidroelétricas", a qual abordará temas sobre a situação da pesca no mundo e no Brasil, e o aquecimento global no contexto da  cultura. E também a participação do Dr. Raúl Cruz do Instituto de Ciências do Mar, Universidade Federal do Ceará, que irá proferir palestra sobre "Desenvolvimento Sustentável da Pesca: Perspectivas e Soluções".

As inscrições são gratuítas, basta enviar um email solicitando informações e inscrição para jornadappgeap@gmail.com que o solicitante irá receber um formulário para preencher, submeter e logo receberá a confirmação.