O Cultivo das Lagostas

Foto: Lagosta Vermelha (Panulirus argus). Fonte: alexcsf.wordpress.com.
A lagosta constitui um alimento marinho de grande valor comercial e de grande importância para a pesca em muitos países. Em 1994, na costa cearense, onde 80% das lagostas brasileiras são capturadas, foram pescadas 6.023 toneladas e, somente através do porto de Fortaleza, foram exportadas 1.892 toneladas, gerando uma receita de US$ 42 milhões. Estima-se, porém, que 90% do total capturado tenha sido exportado através de outros portos, sendo que apenas 10% foram consumidos no Brasil.

Em todo o mundo, existe aproximadamente 30 espécies de lagostas (gênero PanulirusPalinurus e Jasus) exploradas pela pesca industrial e, no Brasil, duas espécies possuem grande importância econômica: a vermelha (Panulirus argus) e a cabo verde (Panulirus laevicauda).

A captura destas espécies tropicais se faz normalmente com o covo, também denominado manzuá ou com a caçoeira, que constitui a arte de pesca preconizada pelo IBAMA; e ainda através do mergulho, considerada uma modalidade ilegal. Mas, independente da forma como é capturada, os estoques naturais de lagosta estão quase sempre sujeitos a sobrepesca. Desta forma, devido às limitações bioecológicas existentes, a ampliação das atividades ligadas à pesca de lagostas é pouco recomendável senão imprudente. Diante deste quadro, as perspectivas para atender uma demanda mundial crescente, voltam-se para o cultivo desses animais.

Entretanto, poucos cientistas, até hoje, foram bem sucedidos nas pesquisas relativas ao cultivo de lagostas, desde o ovo até as formas bentônicas. O status atual do cultivo das larvas de lagostas é similar ao dos camarões Penaeus há 50 anos atrás, quando as pós-larvas foram cultivadas pela primeira vez em pequeno número.

O primeiro pesquisador a completar o ciclo larval da lagosta foi o Dr. Jiro Kittaka, em 1987, no Japão, utilizando a espécie Jasus lalandii. Posteriormente, Kittaka e sua equipe cultivaram do ovo até as formas bentônicas o híbrido entre Jasus novaehollandiae J. edwardsiiPalinurus elephasPanulirus japonicusJ. verreauxi e J. edwardsii. Nestes experimentos, a sobrevivência das larvas durante os estágios iniciais foi modesta, melhorando a partir dos estágios intermediários.

O brasileiro Marco Antonio Igarashi, da Universidade Federal de Ceará, é o primeiro brasileiro a completar, em equipe no Japão, o ciclo larval da lagosta Jasus verreauxi, e a realizar o acasalamento da espécie Panulirus laevicauda em cativeiro, contando com o auxílio de Roberto Kiyoshi Kobayashi e Esmerino de Oliveira Magalhães Neto.

Igarashi, discípulo do Dr. Kittaka quando esteve no Japão para seu doutoramento em engenharia de pesca pela Universidade de Kitasato, descreve à seguir detalhes importantes do ciclo de vida e das fases do cultivo em laboratório desses animais.

Foto: Exemplar de Panulirus argus. Fonte: llracing.weebly.com.
Foto: Exemplar de Panulirus laevicauda. Fonte: http://ideiaweb.org/.
As lagostas adultas podem ser encontradas em conglomerados de algas calcárias, cascalhos, rochas, etc. Atingida a maturação, a reprodução das espécies Panulirus argus e P. laevicauda pode ocorrer durante o ano todo, nas regiões tropicais, em locais profundos e afastados da costa. Alguns estudos demonstram que estas espécies em processo de reprodução possuem comprimento total entre 16 e 34 cm e 15 e 29 cm, respectivamente.

Em várias espécies a reprodução ocorre logo após a muda das fêmeas ou varias semanas após este fenômeno. Na cópula, o macho deposita no esterno da fêmea o espermatóforo, que pode tornar-se marrom ou preto após poucos dias. A fêmea, dotada de pinça no último par de patas, raspa a cobertura protetora do espermatóforo franqueando assim a liberação de óvulos e espermatozóides, para que a fecundação ocorra externamente. A seguir, os ovos aderem-se aos pleópodos onde ficam algumas semanas até a eclosão das larvas (filosomas). As fêmeas podem desovar aproximadamente duas a seis vezes ao ano. Já foi relatado, inclusive, fêmeas carregando de 5 mil a 2 milhões de ovos.

As larvas são planctônicas e oceânicas, passando por um grande número de mudas até atingirem as formas bentônicas. Dependendo da espécie, o período larval pode ser de aproximadamente um ano, quando se transformam em puerulus.

No estágio de puerulus, começam a nadar ativamente em direção ao litoral, procurando locais rasos, áreas de recifes, etc. Este estágio, é a fase intermediária entre o estágio larval e o estágio juvenil, e o período desta fase pode levar, dependendo da espécie, aproximadamente duas a três semanas.

O juvenis da lagosta vermelha, Panulirus argus permanecem em recifes costeiros por um período de 2 a 2,5 anos, ao cabo do qual migram para a plataforma continental.


FILOSOMAS


As larvas de lagostas são denominadas de filosomas. São bastante delicadas, quase transparentes, com olhos dispostos sob um longo pedúnculo, um pequeno abdome e tórax amplo com patas ou pereiópodos. Nos primeiros estágios, alcança em média 2 a 3 mm de comprimento e no último, 30 - 35 mm. Podem ser estimados, para algumas espécies, 11 estágios de desenvolvimento larval que não correspondem propriamente a um número equivalente de mudas. O número de mudas durante o desenvolvimento dos filosomas determina o número de ínstares. O número de ínstares de Panulirus japonicus é estimado em 29. De acordo com os experimentos realizados por Kittaka, o período larval em cativeiro pode ser de 132 a 391 dias, variando com as espécies.

TANQUE DE CULTIVO DE FILOSOMAS


Geralmente os tanques utilizados para o cultivo de filosomas são cilíndricos com capacidade para 50 litros, adaptados em um sistema de recirculação. Os tanques circulares são os mais convenientes para criar uma corrente com variações de velocidade para conservar o filosoma e o alimento flutuando. No caso de drenagem, redes de malha pequena devem ser colocadas para impedir a saída dos náuplios de artemia, alimentos dos estágios iniciais dos filosomas. A densidade pode variar de 2 a 5 indivíduos por litro. Para as espécies tropicais, a temperatura deve estar entre 24 a 29ºC, a salinidade deve ser de 35 ‰ e o pH de 8 a 8,5. Além disso, a água do mar utilizada deve ser tratada com filtros de 1 a 5 m e esterilizada com radiações ultravioleta.

A troca de água deve ser realizada a cada 2 ou 3 semanas. A partir deste período o número de bactérias pode começar a aumentar excessivamente devido às excreções dos filosomas e à decomposição das células mortas de microalgas no caso de se utilizar a água verde.

ALIMENTAÇÃO DOS FILOSOMAS


As condições ambientais e seu requerimento nutricional das larvas no habitat são pouco conhecidas. No entanto, em cativeiro, a alimentação ideal encontrada para os filosomas constitui-se de náuplios de artemia nos estágios iniciais, passando a pequenos pedaços de músculo ou ovário de mexilhão, embora, vários tipos de alimentos para os filosomas tenham sido testados como copépoda, poliqueta, lula, peixe e ostras. Para um número de 20 larvas podem ser ofertados 40 pequenos pedaços de alimento duas vezes ao dia, sempre removendo os restos alimentares. Os filosomas apanham o alimento com os seus pereiópodos e passam-no para o maxilípede, de modo a transportá-lo para a boca. Os pereiópodos se desenvolvem em cada muda. Desta forma, após completar a fase larval, os filosomas metamorfoseiam-se em um estágio transicional conhecido como puerulo, os quais inicialmente são quase que transparentes e estruturalmente similares ao adulto.

PUERULUS


Os puerulus são encontrados nas rochas à beira mar, assentando-se em águas rasas e protegidas, onde assumem uma residência solitária em concentrações de algas, embaixo de pedras, etc. Nesta fase, muda seus hábitos, passando da forma planctônica para a forma bentônica. O comprimento do corpo do puerulus que acabou de se meta-morfosear pode ser de aproximadamente de 20 mm. O período deste estágio sob condições controladas de laboratório pode ser sugerido de 12 a 25 dias. O comportamento de não se alimentar neste estágio foi observado para puerulus de várias espécies.

JUVENIS


A lagosta possui uma natureza gregária, o que a torna apropriada para o cultivo, entretanto, uma densidade excessivamente alta, pode afetar o crescimento e causar mortalidade. Se cultivadas individualmente, podem apresentar um crescimento mais lento ou uma sobrevivência mais baixa do que quando em grupo, embora a densidade ideal possa mudar conforme o seu desenvolvimento. De acordo com algumas estimativas, podemos estocar lagostas a uma taxa de 6 kg/m2.

O alimento ofertado para as lagostas juvenis deve ser de alto valor nutricional e as pesquisas para encontrar uma dieta artificial adequada já estão sendo realizadas. Os alimentos marinhos preferidos pelas lagostas, particularmente o mexilhão, são ofertados em cativeiro. Uma variedade de alimentos já foi testada, tais como abalone, lula, peixe fresco e caranguejo. A equipe da Universidade Federal do Ceará, tem conseguido o desenvolvimento satisfatório de lagostas utilizando caramujos marinhos e ermitão. A alimentação pode ser oferecida diariamente na proporção de 1 a 15% do peso do corpo. O consumo de alimentos varia de acordo com o estágio de muda, tamanho (idade do animal) e aumenta com o aumento da temperatura da água. A taxa de conversão para determinados tipos de alimento pode ser de aproximadamente 4:1, tornando-se algumas vezes mais eficiente, com a ablação do pedúnculo ocular.

A temperatura influencia de forma marcante a engorda e geralmente, as águas mais quentes, aceleram o crescimento. Para o juvenil de Panulirus argus, a temperatura ideal situa-se entre 29-30ºC. Juvenis toleram salinidades baixas de até 20‰, mas a salinidade ideal é a oceânica. Recomenda-se o total de amônia abaixo de 0,5 mg/l e o pH entre 8 a 8,5.

CEARÁ


No Brasil, nossa equipe da Universidade Federal do Ceará, está conseguindo nas pesquisas em andamento sobre a engorda, lagostas de 124 g em 351 dias (recorde no Brasil), com expectativa de obter lagostas no tamanho comercial em 1 a 1,5 anos, enquanto que na natureza os crustáceos demandam um período de três a quatro anos. Estes experimentos sugerem que futuramente as práticas de cultivo poderão ser implantadas em regiões tropicais brasileiras, sobretudo na costa do Ceará, onde há juvenis em profusão. Por outro lado, existe um mercado lucrativo no Japão, Sudeste Asiático e Europa para lagostas vivas com 200-300 g de peso e comprimento da carapaça de 60-75 mm. No Japão o quilo da lagosta viva alcança o preço de US$ 100.00.

O cultivo de puerulus e de pequenos juvenis até o tamanho comercial parece ser mais fácil do que o cultivo de larvas.

A captura de puerulus na natureza para fins de cultivos comerciais ainda é pequena e esta técnica não é ainda utilizada no Brasil. Em Taiwan a captura de puerulus ou juvenis no mar para cultivo comercial é tolerada. Em Singapura e na Índia, pequeno número de Panulirus spp. é cultivado em viveiros e gaiolas. Várias espécies de lagostas podem ser cultivadas até o tamanho comercial de 200 g em dois anos e de 300 g em três anos.

Este tipo de cultivo, utilizando puerulus ou juvenis na natureza deve levar em consideração o impacto que a captura de puerulus poderia trazer para a pesca, a necessidade de formulação de dietas artificiais econômicas e o estabelecimento de uma metodologia eficiente para o cultivo comercial de lagostas. 

O domínio da técnica de larvicultura de lagosta é de grande importância ecológica, o que permitiria criar milhões de puerulus e depois repovoar áreas onde a pesca tenha se reduzido a níveis próximos da extinção.