Peixe tailandês ilumina evolução de tetrápodes

Exemplar da espécie Cryptotora thamicola.
Foto: 
New Jersey Institute of Technology).
É um dos mais famosos capítulos da evolução: cerca de 375 milhões de anos atrás, nossos ancestrais saíram do mar, evoluindo de peixes a vertebrados que caminhavam sobre a terra.

Os cientistas ainda não sabem exatamente como ocorreu essa transição, mas agora uma equipe de pesquisadores descobriu um paralelo notável. Em uma caverna na Tailândia, existe um peixe cego que caminha do mesmo modo que os vertebrados terrestres.

O peixe Cryptotora thamicola, que sobe cachoeiras, desenvolveu muitas características esqueléticas para andar, incluindo uma pélvis evoluída.

Os primeiros vertebrados terrestres, conhecidos como tetrápodes, desenvolveram adaptações que lhes permitiram mover-se de modo eficiente sobre o terreno sólido. Uma pélvis unia seus membros a sua espinha, por exemplo. Essas adaptações levaram os tetrápodes a caminhar de maneira distinta, provavelmente como fazem as salamandras hoje, dobrando o tronco de um lado para outro.

Todos os tetrápodes descendem de um único ancestral — uma única linhagem de peixes que conseguiu se espalhar pela terra.

Pálido e cego, o peixe de cinco centímetros foi descoberto em 1985, no fundo de cavernas da Tailândia. O peixe sobe por rochas escorregadias enquanto a água bate sobre elas. O biólogo Apinun Suvarnaraksha, da Universidade Maejo na Tailândia, e Daphne Soares, do Instituto de Tecnologia de Nova York, encontraram recentemente o peixe escalador e fizeram alguns vídeos de baixa definição.

De volta a Nova Jersey, Soares mostrou os vídeos a sua colega Brooke Flammang, especialista em biomecânica.

A espécie é protegida, por isso não pode ser levada a laboratório para estudo.

Suvarnaraksha deu o passo seguinte. Em um museu da Tailândia, ele encontrou um dos poucos espécimes preservados do peixe. Usou um aparelho de tomografia computadorizada para fazer imagens dele, e Flammang pôde alinhar as imagens para reconstruir a anatomia tridimensional do peixe.

Suvarnaraksha voltou então às cavernas com uma câmera e fez vídeos deles caminhando em diferentes ângulos.

Foto: www.inddit.com.
Quando Flammang e seus colegas analisaram as imagens, confirmaram que o peixe estava usando seu corpo parecido com o de tetrápodes para caminhar com um passo semelhante ao deles. Cientistas descobriram rastros na Polônia que datam de quase 400 milhões de anos que parecem ter sido feitos por um tetrápode caminhando. Mas o fóssil de tetrápode mais antigo encontrado até hoje tem apenas 375 milhões de anos.

É possível que um peixe, e não um tetrápode primitivo, tenha feito aqueles rastros movendo-se como faz o peixe da caverna hoje.

“Vemos essas pegadas em um peixe hoje, fazendo algo muito incomum para um peixe”, disse Flammang.

Foto: scifeeds.com.