Aquicultura em Cuba



INÍCIO DA ATIVIDADE

A aquicultura em Cuba é relativamente recente. Durante a primeira metade do século XIX, ela se limitou a melhorar a pesca esportiva, principalmente peixes de água doce. Um aspecto que não favorece o desenvolvimento da aquicultura no arquipélago cubano é que não há rios caudalosos e também não tinham grandes reservatórios ou massas de água. Além disso, o forte vínculo das atividades socioeconômicas de Cuba com os Estados Unidos, desde início do século passado, favoreceu a introdução de espécies de interesse esportivo, incluindo a truta (large mouth black bass), o peixe sol (sunfish) e a carpa comum. Além disso, a rã-touro (Rana catesbiana), que era processada e exportada para os Estados Unidos também foi introduzida.

Esta situação mudou a partir de 1961, quando um grande furacão atingiu o leste de Cuba, causando grandes inundações na bacia do rio Cauto, onde mais de 1.100 pessoas morreram. Para evitar futuros desastres, o novo governo revolucionário começou um programa de construção de barragens nos principais rios, a fim de desenvolver a agricultura em paralelo.

Desde 1960, o governo também começou a regular a pesca nos rios e lagoas, enquanto que o repovoamento era realizado, a fim de conservar as espécies-alvo. Desde então, foi construída, perto de Havana, a primeira Estação de Criação de Peixes no país.

No entanto, em experimentos com espécies endêmicas, como a biajaca (Nandopsis tetracanthus), verificou-se que o seu crescimento e poder reprodutivo foram menores do que as espécies de outros países com uma longa tradição de cultivo. Assim, várias espécies exóticas foram introduzidas (Figura 1) visando a aquicultura comercial para a estocagem dos reservatórios.

Figura 1: As principais espécies exóticas de água doce.

Nos anos seguintes, os centros de produção de alevinos em todas as províncias e viveiros escavados para a produção semi-intensiva de peixes de água doce foram construídos.

Como resultado desses investimentos, as empresas de pesca do governo começaram a produzir de forma estável desde 1995, mais de 20.000 toneladas anuais, sendo a produção aquícola mais alta na área do Caribe. Desse total, aproximadamente 68% são carpas, bagres (24%) e os 8% restantes são tilápias (Figura 2). Mais recentemente, também foram desenvolvidos experiências de cultura em gaiolas flutuantes e de cultivo intensivo com aeradores de pás (Figura 3).

Figura 2: Carpas chinesas e tilápias capturadas em reservatórios cubanos.

Figura 3: Cultivo de tilápia vermelha em gaiolas.

CAMARÃO

A carcinicultura iniciou em 1981 em escala experimental na província Sancti-Spíritus, ao sul do país. Em 1987, começou como atividade industrial com a fundação de várias fazendas e laboratórios de produção de pós-larvas do camarão branco, Litopenaeus schmitti. Estas instalações localizam-se principalmente na região sul-oriental (Figura 4), onde a plataforma marinha é mais larga e existem populações naturais da espécie. Embora inicialmente capturam-se pós-larvas e progenitores do camarão do meio natural, foram realizadas pesquisas sobre a biologia de L. schmitti. Já em 1990, toda a produção foi oriunda das matrizes em cativeiro e foi proibida a captura de pós-larvas no meio natural. Para desenvolver e aperfeiçoar a tecnologia de cultivo, levou-se a cabo um Programa Nacional de investigações, com o apoio da Universidade de Havana e o Ministério de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente. Vários projetos de ajuda da FAO (Food and Agriculture Organization) e o PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) também contribuíram notavelmente aos resultados alcançados.

A maior parte dos viveiros comerciais construídos na época foi de 10 ha, aplicando-se o método semi-intensivo. Toda a produção obtida até 2004 foi a do camarão branco. Também realizaram-se pesquisas com outra espécie nativa (Penaeus notialis, camarão rosado-do-sul), chegando a obter milhões de pós-larvas em laboratório. Porém, esta espécie não teve um bom crescimento nos viveiros. Depois de algumas tentativas falidas de engorda, decidiu-se então, não cultivar esta espécie, e foram realizadas várias ações de repovoamento.

Até 2003, toda a produção de camarão era da espécie L. schmitti, mas, em 2004, o camarão do Pacífico, Litopenaeus vannamei, foi introduzido, sendo uma espécie que já era cultivada com êxito na maior parte dos países tropicais da América. As matrizes introduzidas vieram dos Estados Unidos, e rigorosas medidas de quarentena e biossegurança foram aplicadas. Isto, mais a separação geográfica do país, fizeram que até hoje, não reportem enfermidades virais. Com o L. vannamei, também chamado camarão cinza, os indicadores de cultivo tais como o rendimento e o fator de conversão alimentar (FCA) melhoraram, fazendo com o que a produção anual de camarão quase duplicasse (Figura 5).


Figura 4: Atividade da carcinicultura em Cuba (governo).
Na atualidade, os objetivos das pesquisas são o melhoramento do banco de matrizes, a produção de pós-larvas e de alimento vivo para larvas, o manejo dos berçários e viveiros da engorda, a formulação e preparação de rações artificiais para as diferentes fases do cultivo, e o controle da qualidade da água e patógenos em todo o processo de produção.

As exportações de camarão, como todo produto cubano, não têm acesso ao mercado norte-americano devido ao bloqueio. É por isso que seus principais mercados são a União Europeia (principalmente a França, Espanha e Itália, com apresentação do camarão inteiro), e Canadá, que compra principalmente as caudas (head-off). A marca comercial "Batabanó" distingue do camarão de cultivo de Cuba, da marca tradicional "Caribbean Queen" reservada aos camarões silvestres.

Figura 5: Captura total de camarão de cultivo.

OSTRAS

A extração de ostra do mangue (Crassostrea rhizophorae) realiza-se há séculos em Cuba, constituindo uma tradição em portos como Manzanillo e Sagua la Grande. O uso de pequenos galhos de mangue é típico para a coleta e cultivo de ostras, que se apoia na exploração dos bancos naturais e de coletores suspensos em galhos de mangue ou em parques ostrícolas.

A produção anual de ostras de mangue em Cuba chegou a quase 2800 t, com o funcionamento de 3 laboratórios para a produção de sementes, mas por diversos fatores, alguns relacionados com a crise econômica do país depois do desaparecimento do campo socialista, estes laboratórios fecharam, e a produção atual é de apenas 1500 t. 

Com um potencial estimado de aproximadamente 4000 t/ano, o Setor da Aquicultura e Pesca do Ministério da Indústria Alimentar (MINAL), tem várias medidas propostas para aumentar a produção atual de ostras. Entre estas, estão: aumentar o valor do preço do produto para o mercado de exportação, avaliação dos laboratórios de ostras, a fim de reiniciar a produção de sementes, desenvolver técnicas melhores de marketing para a indústria do turismo, aumentar as áreas de cultivo e a realização do policultivo com camarões e cultivos em balsas.

OUTROS CULTIVOS

A estabilidade obtida na produção de peixes de água doce e camarões marinhos cultivados, que empregam de forma permanente a milhares de trabalhadores e técnicos em Cuba, não foi obtida igualmente na produção de peixes marinhos, a qual não conseguiu estabilizar-se. A seguir se resumem algum dos trabalhos realizados:

Resumo das experiências piloto de maricultura em Cuba:

1996: Baía de Cienfuegos. Experiência de cultivo de corvina vermelha.

1998: Baía de Cabañas. Experiência de cultivo de dourada (sea bream), 5 t foram obtidas na despesca.

1999: Arroyos de Mantua, província Pinar del Río. Experiência de cultivo de robalo (lubina, sea bass), 10 t foram obtidas.

2000-2004: Niquero, província Granma. Projeto de cultivo de dourado (sea bream), pela Companhia Português-Cubana GRANMAR S.A.. O laboratório para peixes foi construído e 700 t foram produzidas em gaiolas marinhas (Figura 6).

Figura 6: Gaiolas marinhas da empresa GRANMAR, em Niquero, província Granma.
2012-em andamento: Baía de Carahatas. Experiência de cultivo de lagosta (Panulirus argus) em gaiolas. Parceria Vietname-Cuba.

2014-em andamento: Baía de Cochinos. Experiência de cultivo de bijupirá (Rachycentron canadum).Parceria entre o Instituto Nacional em Nutrição e Produtos do Mar (NIFES) da Noruega e o Centro de Investigações Pesqueiras (CIP), de Cuba.

Os principais critérios para a seleção de espécies nativas de interesse comercial utilizados nestas investigações em Cuba são:

  • O rápido crescimento em cativeiro.
  • Conhecimento da biologia, comportamento e técnicas de criação.
  • Longos períodos de reprodução.
  • Adaptação rápida a rações artificiais e eficiente Fator de Conversão Alimentar (FCA).
  • Carne de qualidade para fins industriais e produtos de valor agregado.
  • Resistência à doenças.
Vários projetos de investigação em maricultura estão atualmente em execução, graças à colaboração com diversos países e instituições internacionais juntamente com o CIP-MINAL. Além dos já mencionados cultivos de bijupirá (com a Noruega) e de engorda de lagosta (com o Vietnam), destaca-se o projeto com a JICA do Japão, que em 2008 se desenvolveu na Santa Cruz do Sul, província Camagüey. Graças à colaboração de investigadores cubanos e japoneses, em 2014, o projeto dominou a tecnologia de produção de alevinos de robalo comum (Centropomus undecimalis) e do vermelho-cioba (Lutjanus analis). Atualmente, trabalha-se no desenvolvimento de uma tecnologia para a engorda destas duas espécies de grande demanda no país.

Em resumo, ainda é necessário muito trabalho para conseguir consolidar a maricultura e, de modo geral, a aquicultura em Cuba. Mas vale a pena, já que os produtos pesqueiros têm uma grande aceitação da população, e em especial, do setor turístico. Além disso, a recente abertura de relações com os Estados Unidos, o consequente aumento do turismo e a redução de impostos do Governo para atrair investimentos estrangeiros, desenham um cenário promissor para esta atividade no país.

Por Rafael Fernández de Alaiza García-Madrigal .

Fonte: www.gia.org.br.