Pesquisadores descobrem como produzir açúcar com cascas de camarão

Esse novo tipo de açúcar pode ser transformado em álcool, com produção de alto rendimento e baixo custo. Instituições que realizam a pesquisa fizeram o registro de patente internacional

Pesquisadores do Tocantins descobrem que cascas de camarão viram açúcar. Foto: https://g1.globo.com.
Tocantins (TO) - Pesquisadores do Laboratório de Pesquisa em Produtos Naturais da Universidade Federal do Tocantins e do Instituto Federal do Tocantins descobriram que é possível produzir açúcar com cascas de camarão. As instituições deram entrada num pedido de patente internacional.

Esse novo tipo de açúcar pode ser transformado em álcool. Isso é possível porque na casca do camarão existe uma substância chamada quitosana. A descoberta é resultado da dissertação de mestrado do pesquisador em biologia Eber de Souza.

"Estamos trazendo para nossa história como pesquisadores, como academia, como sociedade, uma nova fonte de açúcar, porque as que nós possuíamos anteriormente eram basicamente a partir da cana-de-açúcar. Esse é o primeiro açúcar fermentescível a partir de uma origem animal."

A quitosana é o segundo biopolímero mais abundante do planeta. "Só perde para celulose que é muito conhecida e utilizada em várias áreas pela ciência. No caso do camarão, específico na carapaça dele, existem alguns compostos como minerais e proteínas. Entre estes compostos existe a quitina, que por um processo químico chega até a quitosana. É justamente esse biopolímero muito utilizado na indústria na área farmacêutica, na área médica, na área química. Agora nós conseguimos degradar esse biopolímero até o formato, até o açúcar menor, o fermentescível", explica Souza.

Método
Os pesquisadores trituraram a casca do camarão e fizeram um processo químico para retirar as proteínas e os minerais até que restasse somente a quitosana, que é um pó de cor bege. Junto com essa substância, os professores colocaram mais dois reagentes líquidos que ainda não podem divulgar quais são.

Este processo é todo feito na temperatura ambiente. O primeiro produto transformou a quitosana em gel e o segundo quebrou as moléculas, dando origem ao açúcar fermentescível, que a indústria poderá utilizar de diversas maneiras, inclusive, na produção de biocombustível.

"Através da utilização da inovação, nós adicionamos o reagente à quitosana permeabilizada. Isso fez com que a molécula fosse quebrada e durante o processo de quebra ocorreu a liberação de nitrogênio, que é um ácido não poluente. Essa molécula quebrada formou um açúcar que pode ser convertido então em etanol", diz o pesquisador em química Sergio Ascêncio.


Benefícios
Os pesquisadores apontam que esse método tem uma série de vantagens, como o baixo custo e alto rendimento. Calcularam que enquanto a produção de álcool com uma tonelada de cana-de açúcar é de 80 litros, a produção de uma tonelada de quitosana, pode render 250 litros.

Outro fator que pode baratear os custos do etanol é que a quitosana não tem lignina, presente no bagaço da cana-de-açúcar, um item que torna mais cara a produção de etanol.

"A lignina é o composto da dureza no material que dá resistência. A extração dela ainda é um pouco cara, pensando, no custo do combustível. No nosso processo não existe lignina nesse material. Sem essa etapa, fica muito mais barato, comparado ao etanol de segunda geração", afirma o pesquisador em química Adão Montel.

Neste trabalho os especialistas também concluíram que além do camarão, é possível obter açúcar a partir da quitosana presente em outros crustáceos, como lagostas, caranguejos e insetos, como baratas. Atualmente, no mercado, a quitosana é usada na cicatrização de ferimentos e também como auxílio para perda de peso e em diversas outras áreas da medicina e agricultura.

O resultado dessa pesquisa dos professores da UFT vai ao encontro do interesse mundial pela diversificação de matrizes energéticas. Por isso, a universidade e o Instituto Federal do Tocantins fizeram o primeiro registro de patente internacional. Isso significa que a inovação tem prioridade em 195 países, pelos próximos 18 meses.

Quer dizer a tecnologia só pode ser desenvolvida em qualquer lugar do mundo com autorização dos pesquisadores. Para os professores, o novo açúcar que gera etanol, por ser útil em países da Ásia.

"Você pode pensar em países como Coréia do Sul e Japão, que tem limitação de território, que não podem produzir tanto uma energia derivada de produção agrícola, mas uma energia derivada de carnicicultura, da produção de camarão é totalmente viável", defende o pesquisador em química Adão Montel.

Pesquisador Eber de Souza. Foto: https://g1.globo.com.