Hortaliças e peixes juntos na mesma água: isso é a aquaponia

Figura: Uma bomba faz a água circular entre o tanque com peixes, cujos dejetos nutrem os vegetais, e devolve a água limpa para o tanque. Fonte: EMBRAPA Tabuleiros Costeiros

A unidade da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (APTA) de Pirassununga realiza pesquisas com peixes e camarões de água doce. Um dos estudos é a aquaponia, que junta criação de lambaris-de-cauda-amarela com o plantio de verduras, utilizando a mesma água em circulação permanente. O estudo foi iniciado há dois anos em parceria com os pesquisadores e zootecnistas Fábio Sussel, da APTA de Pirassununga, e seu colega Fernando Salles, da APTA de Ribeirão Preto.

Embora recente no Brasil, a aquaponia é praticada na Europa há muitos anos. Sussel montou em Pirassununga tanques com lambaris e alfaces, perto da Cachoeira de Emas, parte mais caudalosa do Rio Mogi-Guaçu e ponto turístico da cidade. “Aqui é o maior berçário de peixes de água doce do Estado de São Paulo”, assegura. Atualmente, a pescaria nos rios paulistas está proibida até fevereiro, por causa da piracema, reprodução de lambaris, pintados, dourados, piaus, mandis e outras espécies dos rios brasileiros. Os tanques do pesquisador servem para aulas práticas a quem se interessar pela técnica (produtores, estudantes, outros pesquisadores e demais interessados). Além dos espaços de aquaponia, no local há outros tanques maiores para criação permanente dos lambaris, tilápias e outras espécies, como o camarão de água doce, o gigante da malásia. Sussel explica a diferença entre hidroponia e aquaponia. A primeira é apenas plantação de hortaliças em água, em vez de terra. No entanto, com o tempo os nutrientes introduzidos na água para alimentar as plantas deixam o sistema saturado e o produtor tem de descartar o líquido e trocá-lo. No entanto, o que é jogado fora tem poder poluidor no meio ambiente, o que torna a hidroponia menos sustentável. “A aquaponia é o método mais correto de misturar proteínas vegetais (verduras) com animais (peixes) e o mais sustentável do mundo, porque a água não precisa ser trocada. A perda ocorre apenas por evaporação e transpiração das plantas.

Sustentável – No primeiro tanque, os lambaris se alimentam de ração. No fundo, uma bomba suga a água “suja”, com excrementos e outras substâncias que saem das brânquias dos peixes, material com alta porcentagem de nitrogênio. Tudo é bombeado para um segundo tanque onde estão as alfaces. Por cima do meio aquoso, existem umas pedrinhas redondas de argila onde vivem bactérias benéficas que transformam o material dos lambaris em nutrientes para os pés de alface. Depois, a água é novamente enviada ao primeiro tanque onde estão os peixes,fechando o ciclo – e assim sucessivamente se mantém o processo com o mesmo líquido.

O zootecnista explica que as hortaliças às vezes precisam de 13 tipos de nutrientes, à base principalmente de nitrogênio, potássio e fósforo. “E o material recolhido dos peixes, após processamento das bactérias, contém aproximadamente dez desses nutrientes. Se a gente perceber que as plantas estão carentes de algum outro alimento, então introduzimos o que falta”, conta Sussel.

Ele ressalta que a criação de lambaris é indicada para restaurantes e bares que os servem como canapés. Há locais que vendem esses peixes para isca viva na pesca de dourados. Por ser pequeno e leve, cerca de 10 gramas cada um, o lambari não é comercializado por quilo, mas em bandejas com 20 unidades, que custam cerca de R$ 10.

Sussel faz questão de explicar que a aquaponia, embora seja a mais sustentável das técnicas de produção, é apenas mais uma forma de conseguir alimentos para consumo humano e não a salvação do mundo. A técnica pode conviver com outras, como hidroponia, produção orgânica e a convencional, com agroquímicos. “Quanto mais metodologias de produzir alimentos forem criadas, melhor para todos”, sustenta. De prático, cita Sussel, existe um produtor de aquaponia em Mogi-Guaçu, mas com criação de tilápias, e uma associação de Holambra que está interessada em usar a técnica com lambaris a partir deste ano.

O pesquisador mora com sua mulher Sinthya Araújo na propriedade da APTA de Pirassununga, na beira do Rio Mogi-Guaçu. Na janela de sua cozinha, ele montou um pequeno sistema de aquaponia, com pés de alface e temperos e outro tipo de lambari, o cor-de-rosa. Quando sua mulher precisa de manjericão ou hortelã é só esticar o braço e pegá-los fresquinhos.

Reizinho
– Sussel trabalha com lambaris há sete anos. É estudioso de novas formas de nutrição e de reprodução induzida em épocas diferentes daquelas que ocorrem na natureza. “Este peixinho se reproduz no verão, mas já consegui também no inverno. Aliás, esta espécie tão popular no Brasil foi tema de meu doutorado. Eu o chamo de reizinho dos rios, enquanto o dourado é o rei”. Ele trabalha também com o camarão gigante da malásia. Na produção comercial, esse crustáceo é vendido diretamente a restaurantes, difícil de encontrar em supermercados. Há também em Pirassununga pesquisa com doenças em tilápias.

Existe ainda no local um tanque com lambari-rosa, uma espécie desconhecida que um amigo lhe deu. “Ainda não descobri se é peixe oriundo de mutação ou de reprodução normal. Por isso não posso introduzi-lo na natureza, somente criá-lo nos tanques”, explica.


Otávio Nunes
Diário Oficial do Estado de São Paulo, 5 de janeiro de 2016, Página III.



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